Como pessoas com lesão antiga podem treinar com segurança
Histórico de lesão não tira você do treino. Tira ele do automático e exige prescrição individualizada.
Histórico de lesão não tira você do treino. Tira ele do automático e exige prescrição individualizada.
A primeira coisa que aprende quem trabalha com reabilitação é que o repouso prolongado raramente é o caminho. O segundo é que carga, dosada com critério, é tratamento. A literatura dos últimos dez anos sobre tendinopatia, lombalgia e reabilitação pós cirúrgica converge nesse ponto.
A estrutura mais usada hoje na reabilitação esportiva é a de Cook & Purdam (2009) sobre continuum de tendinopatia, evoluída em Magnusson et al. (2010) e mantida em consenso atual (Scott et al., 2020, BJSM): tecido lesionado responde à carga progressiva, e progressão controlada é o estímulo terapêutico.
Ref: Scott A et al. ICON 2019: International Scientific Tendinopathy Symposium Consensus. BJSM, 2020. https://doi.org/10.1136/bjsports-2019-100958
O erro mais comum não é treinar demais, é alternar entre repouso total e retorno súbito ao volume antigo.
O consenso atual contradiz o repouso clássico. As guidelines da NICE (2016) e da Lancet Series on Low Back Pain (Foster et al., 2018; Buchbinder et al., 2018) recomendam manter atividade, evitar repouso prolongado, e priorizar exercício terapêutico como tratamento de primeira linha pra lombalgia crônica não específica. Imagem de coluna (ressonância) raramente muda a conduta em casos não red flag.
Ref: Foster NE et al. Prevention and treatment of low back pain: evidence, challenges and promising directions. Lancet, 2018. https://doi.org/10.1016/S0140-6736(18)30489-6
Treino de força bem dosado, mobilidade e exposição gradual à carga axial costumam ser o eixo. Evitar agachamento ou levantamento por toda vida raramente é necessário, e na prática piora prognóstico.
Na osteoartrose de joelho, a meta análise de Goh et al. (2019, Sports Medicine) e atualização em revisão Cochrane (Bartholdy et al., 2022) confirmam que treino de força reduz dor e melhora função com tamanho de efeito moderado, comparável a anti inflamatórios sem efeitos colaterais. Em lesão de LCA pós cirúrgica, protocolos como o de Grindem et al. (2016, BJSM) mostram que retorno ao esporte antes de critérios funcionais cumpridos (força quadríceps simétrica, hop tests, controle motor) aumenta reincidência. Pressa custa caro.
Ref: Grindem H et al. Simple decision rules can reduce reinjury risk after ACL reconstruction. BJSM, 2016. https://doi.org/10.1136/bjsports-2016-096031
Revisão de Littlewood et al. (2019) e meta análise de Steuri et al. (2017, BJSM) mostram que exercício terapêutico isolado tem eficácia comparável à cirurgia em síndrome do impacto subacromial e dor crônica de ombro em populações selecionadas. Cinesioterapia progressiva com controle escapular costuma ser primeira linha.
Ref: Steuri R et al. Effectiveness of conservative interventions including exercise, manual therapy and medical management in adults with shoulder impingement: meta analysis. BJSM, 2017. https://doi.org/10.1136/bjsports-2016-096515
Sinais assim pedem avaliação médica antes de retomar.
Lesão antiga é parte do contexto, não sentença. Quem prescreve precisa conhecer a história, dosar com paciência, e ajustar conforme a resposta semana a semana. Treino bem feito é, em quase todos os casos, parte da solução, não do problema.